Abri a porta do apartamento da minha mãe com minha chave e tremi com o que ouvi — o que descobri mudou minha vida para sempre

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Lera voltava para casa após um encontro, mergulhada em pensamentos pesados. Ela não esperava que Ivan lhe pedisse em casamento justamente hoje. O gesto dele a deixou em choque — ela ainda não conseguia dar uma resposta clara. O coração doía de ansiedade: e se ela se enganasse de novo? As feridas do recente divórcio ainda não tinham cicatrizado. Não seria cedo demais para um novo casamento? Queria conversar com a mãe, saber sua opinião. Será que era tudo precipitado?

No início, Lera aceitava sair com Ivan apenas para tentar retomar a vida normal e esquecer o ex-marido que traíra sua confiança. E agora — um casamento? Tudo aconteceu muito rápido! Sim, ela sabia que Ivan nutria sentimentos por ela há tempos, mas isso era amor de verdade? E ela conseguiria amá-lo de volta? As perguntas rodavam em sua mente e não a deixavam em paz.

Parada diante da porta, Lera pegou a campainha — mas, como sempre, ela estava mudo. Quantas vezes tinham consertado aquele botão? Em vão. Ela escutou atentamente, bateu na porta, mas ninguém atendeu. Devem estar vendo série em casa. Ela não queria atrapalhar. Lera pegou a chave — tinha acesso ao apartamento da mãe caso fosse necessário.

Entrando silenciosamente, ouviu vozes vindas da sala. A mãe havia convidado uma amiga — Nina Vassilievna, mãe do Ivan. Lera quis dar meia-volta para não interromper, mas algo a prendeu no lugar.

— Espero que tudo dê certo, Anechka! Finalmente os nossos vão rumo ao casamento, como planejamos — dizia Nina Vassilievna.

O coração de Lera apertou. Eles já sabiam… Por que Ivan se adiantou com o pedido, sem saber o que ela pensava?

— Estou simplesmente feliz — respondeu a mãe. — Quando ela se casou com aquele Pashka, quase enlouqueci. Ele não tem família, nem posição social. Fez só uma escola qualquer. Dizem que se amavam, mas será que o amor basta para criar uma família? Para Lera sempre desejei o melhor. Com Vanja ela estará em boas mãos.

Nina riu baixinho e sussurrou algo, que Lera não ouviu. Ela se aproximou com cuidado, o chão rangeu sob seus pés.

— Vanja é responsável. Lera é inteligente, bonita, cuidadosa. Vai ser uma boa nora. Especialmente agora que ele recebeu uma herança do pai. Tinha muito medo de ele cair nas mãos de alguma oportunista que só quisesse dinheiro. Mas Lera é diferente. Ainda bem que eles se deram uma chance.

“Herança?” — um choque percorreu Lera. Ela não sabia de nada. Recordações começaram a se formar na mente. Início de escola: amigas diziam que combinavam. Depois a mãe avisou: “Ele não tem nada. É estudante. Você precisa de alguém estável”.

Lera se afastou do Ivan. Logo conheceu Pavel, se apaixonou… e foi traída. Agora parecia que o motivo do fim do relacionamento era outro. Era por conveniência financeira? Ivan não precisava provar nada porque ela estava disponível. E tudo isso só por dinheiro?

— “Eu fiz muita coisa para que Lera se separasse daquele Pashka. Ela estava completamente apaixonada por ele. Espero que Vanja a valorize e não a magoe. Fiz muito por tudo isso.”

O coração de Lera disparou. Ela precisava ouvir mais. Será que Pavel nunca tinha traído? Como encará-lo agora? Ela se lembrava de como ele chorou pedindo para ela ouvi-lo, perdoá-lo. E ela se negou. Achou que tinha provas. Mas tudo foi encenação — para ganhar a herança. Sem isso, nada teria acontecido. Eles teriam sido felizes.

Lágrimas começaram a rolar. Era uma verdade terrível revelada por uma campainha quebrada e uma chave.

— “Você é incrível, Anechka! Sem você nada disso daria certo. Mas isso fica entre nós. Ninguém pode saber que tudo foi planejado. Agora os dois estarão juntos e teremos paz. Vanja sempre amou a Lera, e estou tão feliz que ele lhe pediu em casamento! Você acha que ela já disse sim?”

— “Se ela disser não, eu a farei dizer sim. O que há para pensar? Vai dar tudo certo. eu já passei dos limites — embebedei o futuro genro e o coloquei com outra mulher. Vou levar isso até o fim.”

Lera vacilou, como golpeada por peso. O mundo desmoronou. A mãe, o ser mais amado… traíram, enganaram e sem nenhum remorso. Ela lembrou da dor após o divórcio, de momentos em que desejou desaparecer. Lembrança de Pavel chorando, pedindo para ela ouvir, perdoar. E ela não conseguiu ouvir. Achou que estava certa. Agora tudo foi manipulada por dinheiro! Sem a herança aquela reunião jamais existiria. Eles poderiam ser felizes.

Lágrimas quentes escorreram. Respirou fundo e entrou na sala. Anna Ivanovna e Nina tomaram um susto. No rosto de Lera viram que ela tinha ouvido tudo.

— “Lera, por que você abriu a porta sozinha? A campainha não funciona, mas você poderia ter batido!” — tentava controlar a situação a mãe.

— “Vim por conselho, mamãe…”, disse Lera em voz baixa. — “Ivan me pediu em casamento. Queria saber se é cedo demais. A quem mais me dirigir, senão a você, em quem sempre confiei?”

Anna tentou tocá-la, mas Lera recuou, balançando a cabeça:

— “Sem carinhos. A resposta se mostrou sozinha. Obrigada pela ajuda. Espero que se orgulhem de vocês mesmas.”

Cada palavra dilacerava seu coração, mas ela não parou. Virou-se e foi embora. A mãe a seguiu, tentando se explicar, mas não havia mais o que dizer. Tudo ficou claro. Anna Ivanovna armou a encenação para unir Lera a Ivan.

Não se lembra como chegou em casa. O apartamento estava frio, vazio. Caiu na cama, chorou e pensou no olhar de Pavel – repleto de dor e amor. Como contar-lhe a verdade? Como pedir perdão, se ele se recusasse a ouvi-la?

A mãe ligou incessantemente. Lera pediu para ficarem em paz. A decepção era insuportável. A mãe agiu só por interesse. Sem a herança, nada teria acontecido. Ambas as mulheres agiram por covardia. As vítimas — os filhos. Lera sentia pena de Ivan, mas casar-se com ele, jamais. Ligou para Ivan e disse claramente que não corresponderia ao pedido. Sem explicações – não tinha forças.

Dias se passaram. Ela oscilava entre ligar para Pavel e temer sua resposta fria. Reuniu coragem e tentou. Recebeu apenas: “Assinante fora da área.” Seria tolice acreditar que ele esperava por ela. Meio ano se passou. Ela recusou-o novamente e novamente. Talvez ele já tivesse alguém?

Na fábrica em que Pavel trabalhava, Lera soube que ele havia pedido demissão.
— “Ele está com outra?” — perguntou a Vladik, melhor amigo dele.
— “Como poderia, se ele só te amava? Não. Ele foi para o norte, para trabalho em turnos. Disse que assim seria mais fácil esquecer. Mas sempre pergunta se você está bem, se alguém te viu.”

Lera agarrou as mãos de Vladik:
— “Diga onde ele foi. Preciso encontrá-lo. Preciso pedir perdão.”

Vlad entregou-lhe o endereço. Lera comprou a passagem na hora. Bem agasalhada, partiu. No aeroporto, ao passar pela catraca, lançou-se nos braços de Pavel. Ele a envolveu com força, chorando de alegria. Muitas coisas ficaram fora desse momento, mas ali estavam juntos. Juntos de novo. Prometeram que ninguém os separaria nunca mais. Haviam cometido um erro, acreditado em intrigas, mas encontraram forças para encarar a verdade e recomeçar. Pavel não guardava rancor. Amava-a e estava disposto a recomeçar. Nunca mais permitiriam que manipulassem seu destino. Apenas confiança, apenas diálogo — e um amor eterno que supera qualquer prova.

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