— Mãe, meus tênis estragaram de vez! — Misha estava parado na porta, mexendo timidamente na barra da camiseta.
— Como assim estragaram? A gente comprou eles só dois meses atrás!
Marina quase deixou o pano cair. Meu Deus, só faltava essa agora. Ainda faltava uma semana para o pagamento e ela não tinha nem uma moeda na carteira.

— Eu não tenho outros — resmungou o filho. — Uso eles todo dia.
— Estava jogando futebol de novo, né? — tentou falar calmamente Marina, embora por dentro estivesse fervendo.
Misha bufou e desviou o olhar. Svetka, a irmã mais nova e eterna defensora do irmão, interveio:
— Mãe, qual é? Todos os meninos jogam futebol! O nosso agora tem que ficar sentado no banco?
Marina sentou-se pesadamente no banquinho. Filha, se você soubesse como eu queria chorar agora…
— Eu entendo vocês, meus amores. Mas tentem me entender também: a fábrica fechou, o pai de vocês… — ela hesitou, — o pai parou de pagar a pensão. De onde eu vou tirar dinheiro pra comprar tênis novos?
— E a culpa é nossa?! — explodiu Misha. — Então nem deviam ter tido filhos se era pra gente sofrer assim!
Ele se levantou e saiu, batendo a porta com força. Marina continuou sentada, encarando o vazio. Vontade de chorar até doer, mas as lágrimas só podiam vir à noite, quando os filhos dormiam. Agora não dava tempo. Em duas horas ela tinha que ir trabalhar.
Trabalho… Dez anos na fábrica, chegou a ser chefe de equipe. Depois — pum! — acabou tudo. Fecharam. Pensaram que fosse temporário, mas nada disso. Um homem comprou o lugar e agora só trabalha lá gente de fora, trazidos de ônibus durante a noite.
Romã também trabalhava lá. Depois que fechou, ele dirigiu táxi por um tempo e então… ela se lembrava daquele dia. Ele arrumou uma mochila e disse:
— Marina, hoje em dia… viver é como se enterrar vivo.
Na hora ela até riu, achou que era brincadeira. Sugeriu que fossem embora juntos, pra algum lugar melhor. Mas ele estava sério:
— Não, eu vou sozinho. Não aguento mais. Tô ficando louco.
— E as crianças? Elas são suas, Romã!
— O que eu posso fazer? Me chama de canalha, mas eu vou embora. Já decidi.
E foi. Simplesmente sumiu. Foi aí que bateu o verdadeiro medo. Misha na escola, Svetka ainda pequena… Mesmo só pra comida e contas, precisava de dinheiro. E emprego na cidade? Quase nenhum. Tinha até fila pra trabalhar de zelador — e gente com diploma esperando.
Dois dias rodando a cidade — primeiro nos lugares que pagavam bem, depois onde pagavam ao menos alguma coisa, e por fim onde nem sabiam se iam pagar. Agora tem um monte de empresas assim, onde o salário atrasa mais que o fim do mundo.
Com sorte, conseguiu trabalho como faxineira num escritório. Esses escritórios se multiplicaram — gente mexendo com papéis, ninguém sabe o que realmente fazem. Pagavam uma mixaria, mas era alguma coisa. Carne? Nem pensar. Manteiga virou luxo. Mas dava pra viver. Só que quando precisava de roupa ou sapato… era o velho ciclo de pedir emprestado e devolver.
Já tinha vendido a corrente de ouro, a aliança também. Não restava nada de valor.
— Misha! Svetka! Tô indo! — gritou Marina.
Uma resposta indecifrável veio do quarto. Ninguém veio se despedir. Ah, mimou demais os filhos… Mas o que esperar deles? As outras crianças ganhando roupa nova, os dela vestindo qualquer coisa.
Saiu com o coração apertado. Pensava em Romã pelo caminho. Ela mesma pediu o divórcio quando ele foi embora. Também entrou na justiça por pensão. Mas não adiantou. Talvez ele nem trabalhe. Um ano inteiro sem um centavo.
E ela nem casou com ele por amor. Foi mais por achar que era hora. Trabalhava na fábrica, não bebia, parecia decente. Namoraram pouco e ele logo disse: “Pra quê esperar mais? A gente combina.” E combinavam mesmo. Ambos caseiros, não gostavam de festa… Quem diria que ele faria aquilo? Se tivessem contado antes, ela não acreditaria.
No escritório, o clima estava estranho. As colegas cochichavam, ninguém trabalhava.
— O que houve? — perguntou Marina.
— Não soube? Tava tudo pronto pra um grande contrato, mas parece que deu errado.
— Sério?
— Informação quente. Se for verdade, o chefe vai ser demitido. E com ele, talvez a gente também. Ele não vai assumir a bronca sozinho.
Marina sentiu as pernas fraquejarem. Que droga… E justo agora que eu ia pedir um adiantamento…
— Vai pedir por quê? — perguntou Alla.
— Misha precisa de tênis. Ia pedir adiantado.
— Hora ruim… Mas tenta. Vai ver você descobre o que tá rolando.
Respirou fundo e bateu na porta do chefe.
— Posso?
André queria mandá-la embora, mas ao reconhecer quem era, apenas acenou:
— Entre.
Lembrou do que a mulher do RH dissera: marido sumiu, dois filhos, mal consegue comer. Uma ideia começou a surgir…
— Bom dia, senhor André. Queria conversar com o senhor…
— Sente-se — ele tentou sorrir.
— Obrigada, prefiro ficar de pé. Será que o senhor pode me adiantar um pouco? Meu filho está sem tênis pra ir à escola…
O chefe a olhou fixamente e, de repente, abriu um sorriso satisfeito:
— Sente-se mesmo assim. Tenho algo pra te dizer também.
Fez uma pausa, escolhendo bem as palavras. Ela precisava mesmo do dinheiro — isso era óbvio. Então talvez aceitasse.
Se conseguisse provar que o fracasso do contrato não era culpa dele, tudo bem. Mas se o demitissem, viria uma auditoria. Aí descobririam os documentos falsos. A única saída: jogar a culpa na contadora. Fizeram o plano juntos, mas ele mudou umas coisas e ela disse que era absurdo. Ele se ofendeu. E agora era a hora da verdade.
— O que eu tenho que fazer? — perguntou Marina.
— Não se assuste — avisou André. — Por esse valor… a tarefa não é exatamente limpa.
Marina sentiu as mãos suando. O chefe percebeu sua hesitação e escreveu um número num papel.
Ela quase caiu da cadeira. Aquela quantia poderia mudar a vida deles: pagar dívidas, comprar roupas, até reformar a casa.
— O que exatamente eu tenho que fazer? — murmurou.
— Trocar os documentos da pasta da contadora. Ela sempre carrega com ela. Você me traz os antigos e coloca os meus no lugar.
— Quer dizer que ela… vai se dar mal?
— Vai perder o emprego, sim. Mas com o nível dela, arranja outro rapidinho. Não se preocupe. Eu pago bem. Pense até o fim do dia. O dono da empresa chega em dois dias — tudo precisa estar pronto. E nem uma palavra pra ninguém.
Marina saiu como um robô. As colegas a cercaram:
— E aí? Ele te adiantou?
Ela acenou, depois negou com a cabeça, fez um gesto e foi pra salinha dela.
Meu Deus, o que eu faço? A primeira vontade foi dizer “jamais!” Mas se ela recusasse, ele chamaria outra pessoa. Alguém aceitaria por esse dinheiro. E se ela pegasse só fingindo que ia fazer? Perigoso. Ela tinha filhos…
Bateram na porta.
— Sim?
Era Olga Gavrilovna — a contadora.
— Boa tarde, Marina. O senhor André saiu, e eu queria conversar com você.
Marina se levantou de repente:
— Que bom que a senhora veio!
E começou a chorar. Não aguentou a tensão.
A mulher sentou-se numa caixa:
— Eu imaginei. Ele quer me usar de bode expiatório, né?
Conversaram pouco. Antes de ir embora, Olga entregou-lhe um envelope:
— Tem pouco aqui, mas dá pra comprar os tênis. É o que eu tenho agora.
— Obrigada… — sussurrou Marina, soluçando.
— Não recuse. Até logo.
Em casa, as crianças a esperavam. Misha foi o primeiro:
— Mãe, desculpa. Eu só…
— Tudo bem, filho. Toma, aqui está o dinheiro pro tênis. E eu comprei um bolo também. Vamos ter visita hoje. Me ajudam com a arrumação?
— Claro, mãe!
Marina tentou não pensar no fato de que tinha aceitado ajudar André — só porque Olga lhe pediu. O dinheiro do chefe estava ali num pacote — nem tocou nele.
À noite, Olga voltou — e trouxe alguém com ela. Marina nunca tinha visto o chefão. Quando a porta se abriu…
— Vanka?! Desculpe… Senhor Ivan…
O homem ficou parado na porta:
— Marinka? Não acredito!
Foram colegas de classe. Depois Marina foi pro colégio técnico — os pais haviam morrido, precisava se virar. Vanya ficou, terminou o ensino médio. Um ano depois, a família dele se mudou.
Eram amigos, mas Marina sempre manteve distância. Mundos muito diferentes.
Ficaram conversando até tarde. As crianças já dormiam quando Olga se levantou:
— Preciso ir. Vocês ainda têm muito o que conversar.
Ivan a acompanhou:
— Obrigado, Olga. Em uma semana eu resolvo tudo por aqui.
Ele e Marina ficaram sozinhos na cozinha. Silêncio.
— Então, Marinka… como é que a menina que me ajudava em física virou faxineira?
Ela suspirou e contou. Sobre o colégio, a fábrica, o casamento…
— Quer dizer que depois do colégio técnico você foi direto pra fábrica? E logo casou?
— Não tinha muita escolha. Eu só queria paz. Você lembra como era em casa… Meus pais — era bebida ou briga todo dia.
Vanya tamborilou os dedos na mesa:
— Lembro sim. Marina — você vai estudar.
— Você tá louco? Com a minha idade?
— Todo mundo estuda! Eu também. E chega de discussão. Eu vou te ajudar financeiramente. Tenho tempo — acabei de me divorciar. Depois você volta pra empresa. Não como faxineira, claro.
— Vanya, eu não vou dar conta…
— Lembra quando eu dizia isso e você me batia com o livro de física?
Marina sorriu entre lágrimas:
— Lembro sim. E eu falava: «não quero ouvir essas bobagens!»
— Isso mesmo! Então me dá os dados do seu ex. Acho que ele ainda deve algo pros filhos.
Três anos depois. Marina Valentinovna assumia o setor. Já podia ter feito isso antes — Vanya ofereceu várias vezes. Mas ela quis terminar os estudos, mesmo que fosse um curso rápido.
Agora, ninguém a reconhecia. Postura, estilo, maneiras — tudo mudou. Ela se sentia outra pessoa. Forte, confiante, amada.
Quem diria que uma tarefa de física na escola seria o começo de uma nova vida…







