Onde pensas que vais?quem vai fazer a sopa? — o marido Enfurecido gritou.

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Cristina colocou o copo sobre a mesa e disse calmamente::

— Vou-me embora, Lesh.

Houve silêncio no quarto. Até mesmo a TV, que normalmente murmurava em segundo plano, como se estivesse calada, sentindo a tensão. Alex se virou lentamente, como se estivesse em câmera lenta.

— Estás louca? Quem vai cozinhar? — ele sussurrou com uma voz trêmula, sem tirar os olhos dela, como se ela tivesse anunciado o fim do mundo.

Ela estava na porta da cozinha, segurando um pacote de documentos. Havia tudo: cópias de seus diplomas, confirmação de um novo emprego e, o mais importante, um contrato de aluguel de um apartamento que ela alugou por seis meses. Noutro bairro. Noutra vida. Em outra versão de si mesmo.

Suas palavras pairavam no ar como uma nuvem de poeira. Ele estava a usar uma t-shirt velha, a coçar o calcanhar com o pé, a segurar um comando na mão. Uma noite normal, como centenas de outras nos últimos dez anos. Só para Cristina, foi o último.

Uma vez que eles estavam viajando nas prateleiras superiores do trem Kazan — Moscou. Riam-se enquanto mastigavam bolos da estação. Alexey contou piadas, acidentalmente tocou seus dedos, passando o chá. Christina então riu do coração — eles estavam de férias, a primeira em muito tempo, e as crianças ficaram com a avó.

Ela olhou pela janela e pensou:»aqui está a liberdade». O trem rugiu ritmicamente como seu coração, e tudo parecia possível.

Lembras-te quando fugimos da festa e fomos ao Parque? — ele perguntou então.

— Certamente. E você disse que casaria comigo, mesmo que eu roncasse e ficasse gorda», ela sorriu.

— Eu disse «Se», não» quando » — piscou. Pareceu-me uma piada.

Agora, cinco anos depois, essas palavras soaram como um golpe.

Na cozinha havia um cheiro de queimado. Na mesa-um fogão sujo, as meias do filho sob um banquinho, uma montanha de pratos não lavados.

Christine, quando vais lavar a louça? gritou do quarto. — Nem sequer há uma colher no lavatório!

Ela silenciosamente limpou as mãos no avental e tirou da gaveta um recipiente de plástico que dizia: «almoço para amanhã. Alexei.»Coloquei — o no frigorífico. Como sempre. Só hoje, pela última vez.

Lembrou-se do voo para Sochi. Sentei — me na janela, e Alex-ao lado, mas todo o vôo entusiasticamente assistindo a série no tablet. Ela observava as nuvens abaixo: pareciam pedaços de açúcar. Ele não disse uma palavra em duas horas.

— Olha como é bonito-disse ela, baixinho.

— Sim-respondeu ele, sem se afastar do ecrã.

No terceiro dia de férias, ele foi jogar bilhar com o vizinho do quarto, «Vitalik do primeiro andar», e só retornou pela manhã.

No final da noite, Christina estava em frente à máquina de lavar, dobrando a roupa lavada. O riso veio da sala — Alex assistiu ao show, onde os participantes gritaram, pularam e perderam milhões. Ela ouvia essa risada e sentia que algo pungente a picava por dentro, cada vez mais doloroso a cada dia que passava.

— Eu não estou fazendo nada de errado com você-disse ele uma vez, quando ela tentou conversar. — Não bati, não traí. Outros têm um pesadelo. Tens sorte.

Ter sorte.

Essa palavra ficou gravada em sua memória. Ela não conseguia esquecer como uma vez contraiu uma gripe com uma temperatura de quarenta anos. Alexey trouxe os comprimidos para ela, deixou-os no peitoril da janela e foi ver futebol. Depois gritei da cozinha.:

Christine, não fizeste sopa. O que temos agora?

Ela estava deitada, tremendo de calor, olhando para o teto, como se ele pudesse responder quando exatamente ela deixou de ser ela mesma. Quando se tornou apenas uma função: cozinhar, limpar, suportar.

Um dia, ela se aproximou do espelho e viu um rosto que não era seu. Cansado, devastado, com um olhar extinto. No interior, havia apenas um eco: «você deve. Tens de o fazer. Tens de…»

Naquela noite, ela pegou um velho caderno de bolso onde escrevia poesia. Sua caligrafia era diferente-viva, livre, como a de um homem que sonha. Olhei para as linhas da juventude por um longo tempo e de repente comecei a chorar. Silêncio para ninguém ouvir. Não pela dor, pela surpresa de ter sido diferente.

Na manhã seguinte, ela enviou um currículo para uma vaga de administrador em uma clínica particular. Não porque fosse o emprego dos sonhos. Ela estava fora de casa. Com um horário fixo. Com outras pessoas. Com o salário no cartão pessoal dela.

Agora, de pé na frente de Alexei, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que estava dizendo a verdade — não para ele, mas para si mesma.

— Você não será ninguém para nós-murmurou ele. — Tudo vai desmoronar sem ti. Crianças…

— As crianças cresceram-respondeu ela calmamente. — Há muito tempo que vivem como tu. Estão à espera que lhes tragam tudo. Não quero que a minha filha pense que é normal.

Ele ficou em silêncio e, pela primeira vez, algo semelhante ao medo apareceu em seu olhar. Não perdê-la é perder o hábito.

— Para onde vais? — perguntou-lhe ele.

— Onde não me perguntem quem cozinha.

Christina foi ao corredor, vestiu um casaco, pegou uma mala de viagem, montada com antecedência. No bolso de cima está uma caneta que as crianças lhe deram. Ela passou-lhe os dedos. E depois saiu.

A rua cheirava a asfalto molhado, Pão Quente Da Padaria ao virar da esquina e liberdade.

Ela passou a primeira noite em seu novo apartamento, em um colchão de ar, sob um cobertor com carros deixados de quando seu filho era pequeno. As paredes estavam vazias, a lâmpada sem abajur. Mas mesmo neste vazio era mais silencioso do que em casa. Ninguém aqui exigiu, esperou, ordenou.

Ela acordou de manhã — pela primeira vez sem despertador, sem pratos tocando, sem jogos de futebol barulhentos. Apenas silêncio. E uma luz suave atravessava as cortinas compradas na venda. Era quase felicidade.

No novo trabalho, ela recebeu um computador antigo e sorriu calorosamente — sinceramente, sem piedade. O grupo mostrou-se heterogêneo, mas benevolente. Ela ainda estava confusa em horários e números de telefone, mas alguém pacientemente sugeriu, alguém colocou uma xícara de chá na frente dela e alguém deixou um chocolate na borda da mesa. Ela ainda não sabia seus nomes, mas sentia uma velha casca de vida saindo dela, onde ela simplesmente não era notada.

Já passou um mês. Alex não ligou. A filha enviou uma mensagem curta: «Mãe, eu estou com você. Só precisa de tempo.» O filho ficou calado. Ele está acostumado a ter a mãe por perto. A Cristina não os culpou. Ela sabia que eles tinham a sua própria dor. Mas agora ela tinha a sua verdade.

Um dia, ela voltou do mercado — carregando uma rede com batatas, sal, cebolas. Tudo tão simples como antes. Só que agora era para mim. Um envelope estava esperando na porta. Sem marca, sem assinatura. Dentro havia uma foto: ela com Alexei e as crianças, há quinze anos. Christina está em um vestido de Verão, sorrindo, abraçando seu filho, Alex-ao lado, segurando sua mão desajeitadamente, como se estivesse posando.

Ela olhou para si mesma-jovem, confiante, ingênua. Dobre a foto ao meio e depois mais uma vez. E guardei-a na gaveta. Não no lixo, na memória. Pode ser, mas não incomoda.

A primavera chegou de repente. No trabalho, as mudanças começaram-ela foi nomeada para a recepção no corpo principal. As chaves do armário, o horário de férias. Pela primeira vez em muitos anos, ela sentiu que confiava nela.

Um dia, ela ficou mais tempo no trabalho do que o habitual. A noite estava fria, mas fresca. Havia uma promoção de café grátis na esquina. Barista em rosa Hoodie perguntou:

— Quer leite?

— Com leite-respondeu ela, e de repente Riu. Por nada. Ninguém perguntou: «Quem vai cozinhar?»

Ela estava andando pela rua com um copo de papel na mão, e o interior era fácil. E nem uma colher suja no lavatório.

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